Contos da Mega-Sena

O jogo de Deus
José Bonifácio era um alcoólatra antes de frequentar a igreja que surgiu na favela. Certa noite, bêbado como um gambá, foi levantado pelo pastor Jonias, que lhe acudiu, curou as feridas e mostrou 'a palavra' àquele senhor de meia idade, já abandonado pela família e pelos amigos.
Parou de beber. Aliás, parou de brigar com a patroa, com os filhos, largou o botequim e, pasmem, até arrumou um emprego com carteira assinada. Ia para a igreja e passou a levar a esposa, que gostou. Depois foi a filha mais nova, a outra que já tinha dois meninos de pais diferentes, e por último, o filho mais velho. Mudaram todos os hábitos: roupas limpas e discretas; camisas sociais, vestidos longos ou muito composto, bíblias em baixo do braço. A família Bonifácio virou exemplo da viela: antes, totalmente desestruturada, hoje a união de pai, esposa e filhos.
Certo dia, José perguntou ao pastor porque não poderia jogar na Mega-Sena, último vicio que ainda lhe restara. José Bonifácio era aquele jogador que sempre, mas sempre tentava a sorte na loteria, desde a Esportiva da zebrinha do Fantástico. Pastor Jonias, muito culto e dono de uma voz reconfortante, alegou que aquilo não era coisa de Deus e que devia seguir seus conselhos para nunca mais ter vícios. Pela última vez, José Bonifácio preencheu um único cartão, pegou R$ 2,00, fez a aposta... e ganhou sozinho na Mega-Sena.
José Bonifácio agora era rico, homem da sorte e homem de Deus. Não mudou da favela, não adquiriu bens, não fez nada. Alias, fez sim: ficou com seus dois milhões em meio à comunidade que o conheceu quando pequeno, que o viu crescer, cair, levantar, cair de novo e aplicou todo o valor ganho na Mega-Sena na igreja do Pastor Jonias que, inexplicavelmente, desapareceu há alguns meses.
O sortudo ganhador, entre um golo e outro de cachaça, dissera que ele estava em Maceió, pregando... mas quem acredita na palavra de um bebum?



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